Cindy Sherman no MoMA

Cindy Sherman - Untitled Film Still #62 (1977)

A exposição Cindy Sherman, do Museu de Arte Moderna de Nova York, conta com um site que, sem dúvida, é impossível simplesmente visitar de forma mais sumária: é preciso passear em suas múltiplas veredas, sem qualquer receio de se perder, ou de perder tempo. Nas obras de Sherman, a fotografia se torna um espaço de invenção e seu valor de documento se rarefaz diante de uma multiplicação temporal: na sua instantaneidade, escondem-se sempre figuras de mais de um tempo.

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Merry Crisis and a Happy New Fear: o mundo invertido

É apenas na fotografia dos policiais caminhando diante de paredes grafitadas com a frase “Merry Crisis and a Happy New Fear” que podemos entrever seu encantamento profano em toda a sua complexidade. Na reiteração subversiva das palavras de ordem do capitalismo, descobrimos, sob a forma de um reflexo invertido, a desordem em que se encontra o mundo, revelando o estado de exceção como regra da situação em que nos encontramos.

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Pacific: a memória do aparelho e as ruínas do espetáculo

Um plano de Pacific em que um passageiro aponta sua câmera para um espelho

Ao se apropriar de imagens já produzidas por outros, Pacific exige que nos perguntemos sobre o que as câmeras capturaram e sobre aquilo que deixaram de fora – a questão da representação – assim como sobre quem as controla – a questão da mediação. Embora as imagens possam ser entendidas como representações do mundo em que vivemos (em sua realidade e em sua irrealidade), a compreensão da complexidade da vida das imagens passa pelo reconhecimento de que, em suas superfícies, o que se codifica são os traços da experiência comum. É na mediação (e não na representação) da experiência que a vida das imagens pulsa com insistência, mesmo quando a vida nelas representada parece se reduzir à repetição de roteiros e programas vazios.

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A luz que corta

Plano de Un chien andalou (1929), de Luis Buñuel & Salvador Dalí

Tudo se passa como se, na luz que se difunde ensolarada na fotografia “Barra” de Rodrigo Cássio, se insinuasse um movimento para fora da imagem – isto é, daquilo que na imagem se faz de índice, de rastro do mundo, de vestígio de um real qualquer e singular. Em contraponto com o voo dos pombos, que a imagem captura como uma pintura cubista desfeita, abrigando em sua superfície os diversos momentos de um movimento que nós só podemos imaginar, a luz convida nossos olhos a uma deriva sem fim – ao mesmo tempo: sem finalidade e sem término.

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O devir-antropófago

René Magritte - Le Miroir Magique (1929)

Há alguns meses, foi publicada no Sopro (nº 48), do Alexandre Nodari e da Flávia Cera, minha tradução do artigo “Antropofagia”, de Alfred Jarry, a partir do original em francês de 1902. Reproduzo-a abaixo sob a forma de citações, incluindo as duas notas de rodapé que já a acompanhavam, em meio a alguns comentários suplementares, que respondem também a algumas das inquietações despertadas em mim pela imagem da capa do Sopro 48, o quadro “O espelho mágico” (1929), de René Magritte.

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Sobre o cinema pós-moderno

O interesse do conceito de cinema pós-moderno é estratégico, porque a noção, equívoca, demanda um contexto de operações teórico-conceituais que lhe dê sentido e esse sentido está necessariamente ligado a uma interrogação sociopolítica. Minha posição pode ser resumida em dois pontos. De um lado, se a modernidade constitui uma época, a “pós-modernidade” é um nome para uma passagem que, como tal, de(s)limita a abertura para outra época, por vir. De outro lado, como a arte e a produção estética em geral não refletem as épocas históricas como um espelho plano e límpido, mas sim como uma casa de espelhos, com suas multiplicações, distorções e transformações das imagens do mundo, o cinema pós-moderno – que pode ser caracterizado como alusionista (em vez de ilusionista ou anti-ilusionista) – é um cinema que converte a história em um parque temático.

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